
Durante três séculos a cultura ocidental, incluindo a medicina convencional, encarou o ser humano como um ser dotado de um corpo físico, como se de uma máquina se tratasse, em que quando uma das peças avaria se procura reparar. Nesse pensamento a mente e as emoções foram relegadas para segundo plano.
O neurocientista António Damásio tem-se dedicado à investigação do cérebro e das emoções humanas, tendo escrito a famosa obra “O Erro de Descartes”, onde afirma que o sistema límbico, que controla as emoções, e o neocórtex, que alberga a razão, se relacionam e trabalham em conjunto, sendo que “toda e qualquer expressão racional está baseada em emoções.” Afirma ainda que “é esse o erro de Descartes: a separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, infinitamente divisível, com volume, com dimensão e com um funcionamento mecânico, de um lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensão e intangível, de outro; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e sofrimento adveniente da dor física ou a agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo.” (1994)
Na actualidade é fundamental rever a concepção Cartesiana que tem servido de base à ciência Ocidental, impõe-se transcender este modelo reducionista, em detrimento de uma visão holística do ser humano, pois só assim se poderá ambicionar compreender o ser humano na sua totalidade.
A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) considera que as nossas vertentes Mental, Emocional e Física se encontram intimamente relacionadas e que são indissociáveis. Nós somos um todo e só na interpretação desse todo podemos compreender verdadeiramente a origem da doença/patologia. Porque não importa apenas “consertar” o sintoma, importa fundamentalmente descobrir a sua causa e aí trabalhar, depois de realizado um diagnóstico que proporá o tratamento adequado, orientando também o paciente para as mudanças específicas que possam ser necessárias, de modo a que não continue a manifestar-se.
Segundo a Medicina Tradicional Chinesa existem várias causas para o surgimento das doenças, classificando-as sobretudo em causas internas e externas. Nas causas internas temos as emoções, nas externas os factores climáticos, como o vento, calor, fogo, humidade, secura e frio; existindo ainda outros factores como a nossa constituição pré-natal, alimentação inadequada, fadiga, exercício físico e actividade sexual em excesso, traumas, epidemias, parasitas, intoxicações, medicação, etc.
De salientar que é normal sentir todas as emoções e que estas só se tornam patológicas se forem particularmente intensas e prolongadas. Também que existe uma interligação e interdependência entre a emoção e o órgão correspondente (embora na realidade possa afectar mais do que um órgão), ou seja, uma determinada emoção irá afectar um órgão em particular, mas se primeiramente for a componente física a entrar em desequilíbrio, esta por sua vez também irá gerar a emoção correspondente.
São 7 as principais emoções nomeadas pela MTC: Raiva, Euforia, Preocupação, Pensamento Obsessivo, Tristeza, Medo e Choque.
De acordo com o Huang Di Nei Jing (cap.39): a Raiva faz o Qi subir e afecta o Fígado, a Euforia faz o Qi fluir lentamente e afecta o Coração, a Tristeza dissolve o Qi e afecta o Pulmão, a Preocupação/Pensamento obsessivo estagnam o Qi e afectam o Baço, o Medo faz descer o Qi e afecta o Rim, o Choque dispersa o Qi e afecta o Rim.
Descrevendo, de forma abreviada, esta interligação emoção-corpo físico:
- a raiva (irritação, frustração, rancor, amargura) pode provocar um desequilíbrio no Fígado, originando sintomas como rosto e olhos vermelhos, cefaleias, tonturas, irritabilidade, tensão arterial elevada, gosto amargo na boca, etc.; podendo também afectar o funcionamento do Baço e Estômago, gerando consequentemente problemas digestivos, diarreia, etc.;
- a euforia (agitação) pode provocar alterações no funcionamento do Coração e da Mente, manifestando-se através de palpitações, insónia, histeria, doenças mentais;
- a preocupação/pensamento obsessivo (tensão, estudo excessivo) podem originar um mau funcionamento do Baço, podendo gerar distúrbios digestivos, falta de apetite, fezes soltas, distensão abdominal, cansaço, dificuldade de concentração, obesidade; e ainda poderá afectar o Coração (palpitações) e o Pulmão (opressão, falta de ar);
- a tristeza (pesar) afecta o Pulmão, provocando respiração curta, falta de ar, estado depressivo, fadiga, opressão no peito, podendo afectar também o Coração;
- o medo/choque afecta o Rim, em que a pessoa se apresenta medrosa, com fobias perante situações diversas, podendo também originar insónia, zumbidos, surdez, incontinência urinária, impotência, cansaço; podendo ainda afectar também o Coração.
Respondendo, então, à pergunta colocada inicialmente: sim, as Emoções podem fazer-nos adoecer. E quando a origem de uma patologia é emocional e só se cuida do corpo físico é bem possível que o problema volte a manifestar-se.
Nos dias de hoje, deveria haver uma disciplina de Educação Emocional nas escolas, até porque o ser humano possui várias inteligências, não apenas a racional. Tal permitiria que as crianças se habituassem desde cedo a lidar com as suas emoções, a saber exterioriza-las e a resolvê-las, para assim se formarem jovens adultos que conseguem lidar com as emoções que vão sentindo, em vez de crescerem com tensões reprimidas e acumuladas, que mais tarde poderão vir a gerar desequilíbrios e doenças.
Marta Dutra, in Zen Energy, Nov. 2017, p.54-55.
Marta Dutra
Terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa
Cédula profissional de Acupunctura, conforme legislação em vigor
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